PESCADOR PORTOBELENSE: “Tem coisas que, se contar, as pessoas não acreditam”

 

José Quintino de Melo, que perdeu irmão e sofreu acidente dramático no mar, evitou que o filho seguisse seus passos

Pescador relutante, José Quintino de Melo, 64 anos de idade, tinha um bom motivo para querer ficar longe do mar: “Eu enjoava muito”. O pai, homem rude, não admitia deserção. Desde os oito anos de idade José o acompanhava nas pescarias, no entorno da baía de Zimbros. Na época, levava-se para comer peixe frito, farinha e um galão de água fria. José evitava o menu, mas o pai era implacável. Certa vez, não teve como segurar: vomitou tudo de volta. Seu Quintino obrigou-o a comer mesmo assim.
O trauma fez José querer manter o filho longe do mar. Josimar, contudo, queria o contrário. O jeito foi montar um estratagema: em uma ocasião, no itinerário entre Itajaí e o Araçá, ele armou para que o menino se empanturrasse de doces. O vento nordeste e o balanço da embarcação fizeram o resto. “Nunca mais que ele quis ir”, diverte-se.
Havia outra razão, mais séria, para barrar o sonho do filho: a perda de um irmão em alto-mar. Miguel aceitara fazer uma viagem curta a bordo do Verde Vale I, mas a embarcação enfrentou um forte sudoeste na altura de Imbituba. Somente o tampão do porão foi encontrado. José estava chegando do Rio Grande do Sul quando soube.
“Ele não corria de tempo ruim”, lembra José, que, após passar aperto em razão da impetuosidade do irmão, evitava dividir com ele um convés. Mas isso não evitou que enfrentasse situações difíceis no mar. Na mais dramática, e que encerrou sua carreira como pescador profissional, teve que lutar pela vida.
Foi em 2012. Uma manhã, após quinze dias viajando em um barco de corvina, José acompanhava a soltura da rede. Após sair para tomar um café, voltava à casaria quando foi surpreendido por um cabo atravessado inadvertidamente em seu caminho. A corda prendeu-lhe o pé esquerdo e o arremessou por cima da amurada. Ele caiu sobre um gradil na popa do barco, com o pé preso entre os ferros. “Foi um estouro só”.
O mestre desacelerou a embarcação, o que fez o cabo da rede, ainda preso ao seu pé, jogá-lo na água. Seguiu-se uma luta pela vida: José precisou desvencilhar o pé, quase decepado, da bota e subir à superfície. Içado novamente a bordo, ficou longas horas em agonia até que um helicóptero de resgate o conduzisse a um hospital. O atendimento emergencial teve o cuidado de estabilizar o ferimento, o que impediu que seu pé fosse posteriormente amputado.
“Então, tem coisa não vida da gente que, só contado assim, muitas pessoas não acreditam. Mas é uma realidade”, conclui. José Quintino foi um dos indicados a Pescador Portobelense 2025, honraria concedida pela Câmara Municipal e entregue em sessão solene no último dia 26 de junho.

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