Sessão solene reafirma laço histórico entre PB e o mar

 

Câmara de Vereadores concedeu honraria a expoentes da tradição pesqueira portobelense

O senso comum atribui às narrativas dos homens do mar uma característica anedótica. “História de pescador” tem, para a maioria das pessoas, sentido de exagero, fantasia e — com maior frequência — mentira. Talvez porque algumas verdades sejam difíceis de acreditar. Afinal, que dizer de alguém que, acometido desde a infância por uma condição que o obriga a se locomover de muletas, consegue superar a maioria dos companheiros de pesca? Ou o sujeito que, surpreendido por uma corda esticada em local indevido, é atirado ao mar e precisa voltar à tona com um dos pés quase decepado?
Histórias como essas marcaram a sessão solene de entrega da honraria Pescador Portobelense 2025, promovida pela Câmara de Vereadores na noite desta quinta-feira (26). Nove representantes do setor pesqueiro, ainda em atividade ou já aposentados, oriundos da pesca industrial, artesanal e até do patronato, tiveram suas histórias exibidas ao público presente e foram homenageados pelos parlamentares, que da tribuna exaltaram o legado e a conexão histórica e cultural do município com a pesca.
Pedindo escusas às demais honrarias que a Câmara anualmente concede, Ednaldo da Silva (MDB) arrematou: “Essa é, para mim, a homenagem mais linda”. O vereador lembrou o pai, Manoel Honorato, morto em 2015, aos 79 anos de idade, ao fim de uma pescaria. Se não o pôde homenagear, o colega Josimar de Melo (PL) redimiu Ednaldo ao trazer ao plenário o próprio pai, José Quintino Melo, 64 anos, para fazer-lhe emocionada reverência.
Não eram os únicos vereadores presentes cujo parentesco remete à atividade pesqueira, o que só reforça a ligação estreita de Porto Belo com o mar. “Na essência dela [da pesca], tem a essência da nossa cidade”, destacou Juliano Guerreiro (Progressistas). Para Onésio Ramos (MDB), é uma profissão que não se traduz apenas em dificuldade, mas em “se sentir bem por fazer algo que gosta”. Onésio aproveitou ainda para restituir a palavra ao senso comum ao contar alguns “causos” de pescador.
Secretário municipal da Pesca, Frank Marques representou o Executivo na sessão (o prefeito Joel Lucinda, do MDB, também participou). Segundo ele, o setor pesqueiro se mantém presente e ativo na economia do município: “Em 2011, 60% da arrecadação do município veio da pesca. E, hoje, está ultrapassando R$ 70 milhões em arrecadação bruta”.
Para o presidente da Câmara Municipal, vereador Willian Ismael dos Santos (Progressistas), a sessão se traduziu em uma noite especial: “Quando a gente fala do pescador, remete à nossa família, remete à história, à cultura e à tradição do nosso município. A gente viu a realidade do pescador, trabalhadores que vão para alto-mar, um trabalho árduo, enfrentando sol, chuva, tempestades, para poder colocar o pão de cada dia em suas mesas. É uma honra prestar essa homenagem”.
Um dos escolhidos para receber a honraria neste ano, Manoel André Filho, o “Ferrugem”, tem 66 anos e nasceu em Canto Grande, atual bairro de Bombinhas. E foi lá que, aos oito anos de idade, começou a ir com o pai puxar redes na praia: “Naquela época, os pais faziam filhos pra ajudar eles em casa, não era pra estudar”. Morando em Porto Belo desde os doze anos, divorciado, pai de dois filhos e afastado da pesca em razão de uma cirurgia no quadril, Ferrugem ficou contente em rever companheiros de labuta no plenário da Câmara: “Foi muito legal, porque os que foram homenageados eu conheço todos, e todos eles ali são meus amigos. Somos pescadores até hoje, e continuamos. Tudo que é feito nessa cidade, começa no pescador”, afirmou.

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